Ter pena não significa respeito

As pessoas adotam muitas vezes uma postura de vítimas, têm pensamentos negativos e acham que o mundo está contra elas. Deste modo, chamam a atenção e contagiam de negativismo todos os que estão à sua volta. Fico inquieta perante estas situações.

Quem tem pena destas pessoas, não acredita que elas consigam ultrapassar a situação que estão a passar. Pior do que isso, alimentam essa vitimização, com palavras e até com a sua própria energia, pois automaticamente ficam com pena do outro. Acredito que ter pena do outro não é respeitá-lo, é achar que ele não consegue vingar neste mundo. Porque é que eu fico tão inquieta com este tema? A resposta é simples, porque me revejo nestes comportamentos, porque eu própria também tenho pena dos outros e de mim. No fundo, acho que a vitimização nos é útil a todos!

Muitas vezes posicionamo-nos no papel de vítima, temos pensamentos negativos sobre certas coisas e achamos que a culpa da nossa infelicidade é sempre do outro. Outras vezes temos imensa pena daqueles que estão no papel de vítimas, não os valorizamos o suficiente e tentamos fazer por eles aquilo que só eles podem fazer por eles próprios.

Quando olho conscientemente para este tema da vitimização, acho mesmo que o papel de vítima nos é muito útil e todos nós o usamos com imensa frequência. Quando nos colocamos no papel de vítima procuramos uma salvação externa a nós, que nos liberte da desgraça que está a nossa vida. Descartamo-nos da responsabilidade e queremos que seja o outro a fazer-nos feliz.

Vou dar-vos alguns exemplos da minha própria vida. Queixei-me inúmeras vezes que tinha ordenados em atraso, mas nunca fiz nada para sair do emprego que tinha. Achava que era uma vítima e não via a vida de outra forma sem ser a trabalhar naquele espaço. A endometriose provoca dor, era um sacrifício para mim suportar uma infinidade de dores e mal-estar na altura da menstruação, e não só. No entanto, demorei imenso tempo a deixar esse papel de vítima e a mudar hábitos de vida, alimentação, etc. Ainda hoje, há coisas que sinto dificuldade em abdicar e sei que me fazem mal. Culpei os outros muitas vezes da minha insatisfação com a vida, apesar disso nada fiz para mudar.

Estes são só três exemplos, porque há imensos! Passamos mais de metade da vida a queixarmo-nos da nossa infelicidade e culpamos os outros das amarguras da nossa vida. Este papel de vítima faz com que se receba carinho e atenção por parte do outro e desperta um sentimento de pena. Será que vale a pena culpar os outros porque eles não cumpriram a expetativa que eu tinha construído? Será que eu também fui responsável porque não fiz nada para mudar?

Parar de me vitimizar e de culpar os outros pelas minhas desgraças é estar consciente de quem sou eu. Hoje vejo isto de uma forma mais positiva, mas houve momentos em que diria: “Pois, mas tu não sabes da minha vida…”, “Falar é fácil, mas só eu é que sei, tu não passaste por lá!”. Escrever este texto, está a levar-me ao passado e a ver as inúmeras vezes que me vitimizei. Tentar evitar responsabilidades é um dos maiores erros que cometemos, porque todos os atos têm consequências. E de algum modo eu fui responsável por tudo o que me aconteceu na vida.

Agora também temos o outro lado. Ao olhar para trás e ver que também fui responsável por tudo o que me aconteceu posso entrar no caminho da culpa. Parece que agora sou eu a culpada pela infelicidade do outro. Se eu tentar ser responsável pelo outro é pior a emenda que o soneto! Numa relação qualquer, sou responsável por metade dessa relação e aquela que fui, apenas foi aquela que eu consegui ser. A culpa é densa e pesada e nem sempre é fácil libertarmo-nos delas.

Nós estamos habituados a que os outros nos escolham e quando alguém se escolhe a si próprio, o outro vitimiza-se para que o primeiro tenha pena dele e o escolha novamente. Se eu não me amar por aquilo que sou e que fui, vou andar sempre à procura desse amor, dessa aceitação no outro e nunca deixarei a vitimização. É uma escolha…

Nós esquecemo-nos que podemos escolher. Em vez de andar sempre a queixar-me do passado, do presente e do que os outros me fizeram, posso olhar para a minha vida e agradecer todos os momentos em que ela me proporcionou aprendizagem. Olhar para o passado é ver determinadas situações como uma experiência, é um modo evoluir, é crescimento, é evolução, é ter coragem para continuar em frente.

Nós, os seres humanos, criamos dramas para tudo, até para as coisas insignificantes! Está nas mãos de cada um mudar e ser mais feliz!

6 thoughts on “Ter pena não significa respeito

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  1. I read portuguese but I don’t write it. I totally agree with you. We need to stop playing victims and taking control. Of course it takes more time and effort but it’s a reward as well. Liked it

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  2. Caramba como eu te entendo, odeio fazer me de vitima, odeio que tenham pena de mim, aprendi, se não estou bem mudo, sofro de SOP como tu bem sabes, dei uma reviravolta a minha vida e em boa hora, não e a doença que nos tem de controlar, somos nos q temos de aprender a viver com ela e a controla-la! Porque sim, dependendo dos dias, nos somos mais fortes do que elas, caramba! Fight like a girl! Always 🙂 You can do it 🙂
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  3. Olá linda! acho que não poderia ler nem escrever um texto tão completo e tão verdadeiro! Apenas podemos ser responsáveis pelas nossas acções, só e apenas. Vitimização não nos traz benefícios algum e chega ao ponto de ser tornar num ciclo vicioso…
    Estou a gostar imenso que estar por aqui e já subscrevi para seguir.

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