Memórias das vindimas

Setembro é tempo de vindimas e de recordar memórias de familiares que já partiram. Estas memórias são positivas e fazem-me sorrir, pois, mais do que apanhar as uvas, que não era a minha tarefa favorita, o mais divertido eram as refeições e as brincadeiras nas vinhas. Tudo isto me faz pensar nas famílias e como muitas delas estão de costas voltadas por situações sem valor, por falta de um pedido de desculpas ou simplesmente por falta de um abraço.

Durante alguns anos, mais ou menos por esta altura, fazíamos a vindima para o meu avô paterno. Este era um dia em que a família se encontrava, pois vivíamos todos em locais diferentes e nem sempre nos reuníamos. Vindimar não era a coisa que mais gostava de fazer, corria o risco de cortar um dedo e às vezes o calor, ou a chuva eram desagradáveis. Mas esta era uma daquelas tarefas que tinha de ser feita e não havia a opção de ficar em casa. As piadas entre familiares eram constantes e a apanha das uvas lá se fazia.

Chegada a hora de almoço estava tudo feito e para surpresa de todos o repasto era bacalhau cozido com batatas, grão e ovo, para repor energias! Bem, não era uma surpresa, pois todos os anos era igual. Era uma daquelas coisas que já fazia parte e ninguém reclamava. Mas sabem uma coisa, hoje acho que tenho saudades daquela comida, dos encontros em família e dos biscoitos da minha avó Beatriz que religiosamente comprava para os netos.

No presente, os avós já cá não estão, a família está meio afastada e até a casa já foi vendida. A vida é mesmo assim. Sobram as saudades daquilo que na altura não dava grande valor, mas que agora me trazem recordações. Gostava de ir àquela casa, de me sentar no borralho quando fazia frio e o lume estava aceso e gostava do sorriso da minha avó.

Estas lembranças despertam emoções e sentimentos. Fazem-me pensar que muitas vezes as famílias não se entendem e desentendem-se por situações pequenas e sem sentido. Só mais tarde conseguimos ver como fomos tolos em alimentar certos conflitos. O problema é que os anos já passaram e não se consegue recuperar o tempo perdido.

Acredito que nós escolhemos nascer na nossa família com um grande propósito, o de aprender e o de passar por determinados desafios, para evoluirmos como seres humanos. Apesar dessa escolha, quando chegamos à vida terrena esquecemo-nos disso e viramos as costas àqueles que escolhemos para aprender. Culpamo-los das desavenças e temos dificuldade em dar o passo e resolver tudo. O orgulho é tramado e faz-nos guardar, constantemente, mágoas do passado e dos familiares.

Supostamente a família é o porto de abrigo, é a nossa zona de conforto. Aparentemente, a zona de conforto é algo que nos protege, onde nos sentimos seguros e relaxados. Mas aquilo que tenho percebido é que a zona de conforto é onde encontramos os maiores desafios, é onde estão as pessoas que nos colocam à prova, é onde eu consigo descobrir quem eu sou na realidade. Também é onde quero agradar, onde quero que reconheçam o meu valor, onde quero que me aceitem, por isso é tão desafiante. É na família que temos as maiores oportunidades de fazer aprendizagens e de experimentar viver certas situações. Cabe-nos a nós escolher como queremos lidar com elas.

Interpretar os comportamentos dos outros não é uma tarefa fácil. A falta de um sorriso pode significar que a pessoa está aborrecida comigo, ou pode simplesmente significar que a pessoa tem algum problema externo a mim. Nós, por vezes, é que levamos tudo muito a peito e ficamos cismados! A forma como interpretamos o mundo e o que nos rodeia faz uma enorme diferença na forma como reagimos. Nós estamos sempre a interpretar os comportamentos do outro, isto não significa que façamos uma boa interpretação. A falta de diálogo e de sinceridade também não ajuda.

E se os nossos familiares estivessem ligados a nós através de vidas passadas? Se calhar explicaria muitos comportamentos e zaragatas que hoje não entendemos! As relações entre familiares têm sempre altos e baixos, não conheço nenhuma família que se dê sempre bem. Então quando algo acontece podemos sempre parar para pensar o que temos a aprender com aquela situação.

Como podemos transformar isto em algo positivo?

Esta é uma pergunta maravilhosa que me ensinaram! Às vezes esqueço-me dela e deixo-me enrolar nos desafios da vida, mas sempre que ela me vem à cabeça novamente, agradeço a Deus por ma relembrar. Ela faz-me mudar completamente a visão daquilo que me está a acontecer. Quando faço a pergunta, permito-me ver o que tenho a aprender com as situações e aquilo a que chamava um problema passa a ser uma aprendizagem.

Aqui fica o desafio, transformem os problemas em algo de positivo. Tentem ver sempre o que de positivo vos trouxe uma situação. Nem que seja não quererem mais passar por ela. Vamos valorizar também os pontos positivos da família e os momentos de harmonia, pois eles também existem!

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