Emoções reprimidas

Desde criança que me esforço por reprimir algumas emoções como o medo, a dor, a tristeza, a raiva… Este esforço não era consciente, mas foi sendo aprendido a partir de comportamentos que fui imitando, vivências que tive e defesas que criei. Consegui refletir sobre isto agora, principalmente depois de ter escrito o último post.

Escrevi aquele texto, ou grande parte dele, quando senti realmente a tristeza, a dor e o vazio. Só o publiquei dois dias a seguir. Escrever e publicar sobre o que estou a viver faz-me algum sentido, principalmente, porque é uma terapia para mim. Depois de estar escrito no blog é como se eu deixasse de ter vergonha de assumir para mim mesma que também sou aquela e que também sinto certas emoções, que na minha cabeça são classificadas como negativas.

Depois de publicar o último post não pensei no que ia acontecer. Confesso que entrei um bocadinho em pânico com algumas preocupações que surgiram de pessoas próximas. Eu sei que é natural. E esta sensação esquisita que ficou cá dentro, dizia que é incorreto mostrar certas emoções, porque ninguém quer que eu sofra, que chore, que me sinta só. Isto fez-me refletir sobre como sempre reprimi certas emoções.

Reprimir as emoções não significa que não as sentia. Elas eram camufladas por uma Guida divertida, bem disposta e sempre de bem com a vida. Hoje consigo olhar para trás e recordar imensas situações em que devia ter gritado, chorado e manifestado o meu sofrimento, e não o fiz. Este medo de mostrar aquilo que sentimos, principalmente o sofrimento, surge porquê?

O que é que dizemos às crianças quando elas caem? Quando os pais discutem, quando eles têm medos, estão tristes ou choram? “Não chores, já passou.” Desculpem mas não passou! Porque é que não se pode chorar e sofrer na hora certa? Se eu não o fizer na altura certa a minha Mente vai assumir que é errado sentir certas emoções. O sofrimento faz parte da vida, mas como custa, toda a gente o quer eliminar. Mas o caricato é que as pessoas passam a maior parte do tempo a sofrer. Com doenças, com dor, com pânico, até que criam doenças maiores.

Não sei o que me diziam acerca disto quando eu era criança. Aquilo que eu sei é que sempre houve um esforço, da minha parte, para eu ser perfeitinha e sempre me senti frágil, apesar de não o admitir. Se eu sentia que os outros não queriam que eu sofresse, então para eles me amarem e aceitarem eu teria de ser da forma que eu imaginava. Esta é uma crença que se enraizou desde muito cedo no meu Subconsciente, juntamente com muitas outras e que depois se foi refletindo no meu comportamento ao longo da vida.

Neste momento, esta reflexão mostra-me como é importante deixar as crianças chorarem e gritarem, como é importante brincar com elas, ouvi-las e compreender o seu mundo. É quando brincamos que elas nos dizem aquilo que sentem, de uma maneira despercebida, se estivermos atentos, as preocupações estão lá. É normal estar triste e sofrer durante um tempo, é bom mostrar à criança que isto é normal e que os adultos também sentem o mesmo.

O problema é que não aguentamos ver o outro sofrer, mas o sofrimento é tão importante como a felicidade. Pois é com ele que aprendemos a nos levantar, a nos fortalecer e a crescer. Evitar sentir certas emoções é saltar etapas.

Passei os últimos dias a dizer a mim mesma que não devo ter vergonha do que escrevi. É como se existisse uma criança cá dentro a aprender novamente que pode sentir tudo. Há milhões de pessoas deprimidas no mundo, será que ninguém perguntou porquê? Será que nós adultos perguntamos à nossa criança interior porque é que ela se sente triste, magoada, frustrada, carente? Será que temos vergonha de a ouvir?

Eu tive vergonha durante muitos anos de ouvir o que dizia a minha criança interior, cheia de crença e medos. Ainda tenho muitas vezes, mas comecei a olhar para ela com outros olhos. Apelidamos certas emoções de erradas e parece que é crime senti-las. Depois limitamo-nos a fingir que está tudo bem. Percebi nos últimos meses como é importante recolher-me, isolar-me para deixar sair as emoções e observá-las sem a pressão do que os outros pensam. Eu fico emotiva e muito birrenta e normalmente os outros afastam-se de pessoas assim Como sei que é extremamente importante sentir isto, tenho-me permitido fazê-lo correndo o risco dos outros se afastarem.

Sentir aquela dor de há uns dias foi extremamente libertador para mim. Percebi que estava a fazer uma grande birra devido ao peso da dependência, das expetativas, do vazio. Uma crise de ansiedade transformou-se num momento de lucidez e o corpo acalmou. Percebi que a vida me estava a dar uma nova oportunidade de fazer tudo de novo! Grata!

9 thoughts on “Emoções reprimidas

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  1. Revejo-me imenso neste texto! Assumir quem somos para nós próprios e para os outros não é tarefa fácil, as vezes as decisões que parecem erradas no momento, acabam por ser as certas!
    Beijinhos
    islandgirllife.wordpress.com

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    1. Tudo começa ao assumir quem somos para nós mesmos. Depois vêm os outros. É muito fácil voltar a cair em padrões antigos, mas já há uma vozinha que me alerta e me faz lembrar que sou eu agora! Não é tarefa fácil, mas é uma escolha de ver a vida que me tem feito mais feliz. Grata pelas tuas palavras. Beijinhos e força com o blog! 😉

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